Domingo, 26 de Abril de 2009

No dia 19 de Março 2009, o grupo dirigiu-se até à Universidade Portucalense, a fim de entrevistar o senhor António Rodrigues, que se encontra, desde os 25 anos, afectado pela surdez. Para tornar a entrevista mais fácil em termos de comunicação, foi-nos facultada uma espécie de intérprete, Raquel, uma vez que esta está mais afeiçoada ao senhor António.

 

 

António Rodrigues

49 anos

Funcionário na Universidade Portucalense

 

      

 

A sua surdez é congénita ou adquirida?

António Rodrigues - Eu não sou surdo de nascença, foi através de um erro médico que surgiu a minha surdez.

 

Como foi a sua adaptação?

A. R. - Ao princípio, claro, foi muito difícil, porque eu não tinha ninguém na família que tivesse surdez. Acho que o meu caso é igual a qualquer pessoa, ninguém está preparado para aceitar a surdez de uma forma querida e na altura em que eu fiquei surdo, passei por alguns problemas. Perdi o meu emprego, por exemplo. Quando se perde o emprego,  no meu caso eu já era casado, tinha perspectivas de uma vida melhor, entra-se numa certa depressão, e, no meu caso, as dificuldades de adaptação foram muitas. Sempre tive muita muita dificuldade, no princípio, e porquê? Porque eu não tinha conhecimento como é que as pessoas sobreviviam, ou como é que as pessoas se adaptavam ao mundo ouvinte. Mais tarde sim, tive etapas de adaptação, mas sempre com uma ajuda de uma associação.

 

Que a associação frequenta?

A. R. - Eu frequento muitas associações de surdos. Estou na direcção da federação. Este fim-de-semana, pró exemplo, estive na associação de surdos das Caldas de Rainha, mas a minha associação é a Associação de Surdos do Porto. Tenho muitos trabalhos realizados na associação de surdos do Porto.

 

Que formação escolar teve?

A. R. - Até agora o 9ºano.

 

Quando surge dificuldades em comunicar, de que maneira é que tenta superar?

A. R. - Ser surdo é acima de tudo um problema de comunicação. Se me disserem que a pessoa surda tem muitas dificuldades, sim é lógico, mas está tudo englobado numa só dificuldade, a comunicação. Olhe, por exemplo, aqui no trabalho, eu muitas vezes tenho de me superar a nível de comunicação. Por exemplo, agora, estamos a comunicar, não estou a perceber muito bem o que estão a perguntar, mas já estou mais adaptado à Raquel, então eu recorro à Raquel para ela me transmitir o que vocês estão a dizer. Tento-me superar através de pessoas amigas, através de pessoas que eu tenho um contacto melhor. Há uma parte muito importante da pessoa que comunica com a pessoa surda, não só de gesto como expressão facial, expressão corporal… Uma pessoa que tenha uma boa expressão facial, uma boa expressão corporal o surdo entende muito melhor.

 

Então, como comunica com as pessoas?

A. R. - Se for uma pessoa ouvinte, que não saiba língua gestual, é lógico o normal, oralidade. Mas se for com uma pessoa surda, eu só falo por língua gestual.

 

Há quanto tempo trabalha nesta Universidade?

A. R. - Há 22 anos.

 

Gosta do que faz?

A. R. - Não.

 

Como ocupa o seu tempo livre?

A. R. - Normalmente, podia dizer que vou jogar futebol, isto ou aquilo, mas faço muito pouco desporto. Os tempos livres normalmente são dedicados a isto mesmo, ao associativismo, ao voluntariado. Eu faço parte de uma comissão de voluntariado que trabalha com instituição de reabilitação.

 

Sente o que o desenvolvimento das novas tecnologias tem influência na sua vida?

A. R. - Sim, sem dúvida nenhuma. Por exemplo, o caso de Messenger. Eu sou um viciado nisso, porque é precisamente o estar a comunicar com a pessoa de várias maneiras, escrita, oralidade, gestual.

 

Alguma vez sentiu-se vítima de preconceito por parte da sociedade?

A. R. - Eu gostava de lhe dizer que não, mas a verdade é que sim. Eu não sei dizer… Por exemplo, a nível de colegas, mesmo aqui no meu local de trabalho, eu já tive aqui na Universidade várias oportunidades. Tenho de reconhecer um bocadinho, deixar de ser um bocado humilde, sermos reais, dizer assim: eu já desenvolvi aqui trabalhos que merecia melhor sorte. Vi pessoas a entrar para aqui, para cargos de chefia, com menos experiência que eu. Menos capacidade para desenvolver certos trabalhos que eu, mas na verdade é que derivado a eu ser surdo, as pessoas passam-me a frente. Se me disserem assim “Isso é descriminação”. Há pessoas que dizem que é uma descriminação positiva. Em certos casos, eu também tenho conhecimento disso, há descriminação positiva, nem toda a descriminação é negativa. Mas nestes casos, não é verdade. Há descriminação mesmo.

 

Tem uma boa relação com os seus empregados e colegas aqui do trabalho?

A. R. - Está aqui uma pessoa de momento que… Posso dizer a verdade. A verdade é que eu não tenho uma boa relação com os meus colegas de trabalho. Mas eu não posso dizer que seja por causa da surdez. Não é por ser surdo que tenho uma má relação, é pelo meu feitio. O feitio comum no ser humano. É como, posso dizer, uma má relação com alguns meus colegas, também posso dizer má relação com a minha família. É verdade, com os meus amigos. Não sou uma pessoa fácil, não sou. Tenho um feitio mau, assumo isso.

 

Como é casado, tem algum filho?

A. R. - Um filho, com 22 anos.

 

Como se relaciona com ele?

A. R. - Quando o meu filho nasceu, logo de inicio eu já sabia que a minha surdez era irreversível. Logo de início, eu tentei que o meu filho aprendesse Língua Gestual porque a partir do momento que eu fiquei surdo, a minha língua prioritária passou a ser a Língua Gestual. O meu filho frequentou muito a Associação de Surdos do Porto. Conviveu muito com as pessoas surdas e foi aprendendo alguns gestos. Esses gestos resultam numa melhor relação entre mim e o meu filho, porque é igual a um casal que tem uma criança surda. Há muitas pessoas, casais que têm crianças surdas e normalmente escondem a surdez das pessoas, dos amigos, da família. Preferem dizer assim “O meu filho já diz isto, já diz aquilo. Já diz pai, já diz mãe”. É completamente errado, porque uma criança surda, quando nasce surda, a forma de lidar melhor com a criança é os pais aprenderem língua gestual. É muito, muito importante. O contrário também é verdade. Neste caso foi o meu filho. O meu filho teve de se adaptar a mim, ele é que teve de aprender língua gestual. Normalmente, quando as pessoas têm filhos surdos, as pessoas não querem aprender a Língua Gestual, querem dizer só algumas palavras ao filho e, assim, nunca vai haver um bom relacionamento entre o pai e o filho. Os pais de crianças surdas que não aprendem Língua Gestual nunca vão poder fazer uma conversa com o filho. Mas sim, é possível conversar, é possível estarmos à mesa, estarmos a conviver diariamente, boa relação, boas conversas sem aprender Língua Gestual. E olhe que não é assim tão difícil um pai aprender Língua Gestual. Eu nunca na vida poderei ouvir, mas o contrário, as pessoas comunicar comigo é possível.

 

Foi fácil aprender Língua Gestual?

A. R. - Eu não vou dizer que foi fácil, eu não frequentei cursos. Foi a convivência com as pessoas surdas, só mais tarde já depois de ter aprendido a Língua Gestual com as pessoas surdas é que comecei a frequentar um curso e nesse curso já sabia a maior parte das cosias. Há duas maneiras de ver a Língua Gestual: é saber fazer gestos e saber fazer frases, saber fazer conversas. Eu na altura que eu fui fazer o curso de Língua Gestual, já sabia fazer alguns gestos, mas não sabia fazer frases, nem podia fazer conversas. O curso ajudou-me bastante. Fi-lo na Associação de Surdos do Porto.

 

Como é viver no mundo dos ouvintes sendo surdo?

A. R. - Eu olho para o mundo ouvinte, às vezes vejo as pessoas a lamentarem-se disto e daquilo, e começo a pensar “Eu sou surdo, não é uma deficiência grande, mas é deficiência”. Não é por ser surdo que uma pessoa vai chorar ou lamentar-se… Eu vejo outro tipo de deficiências, e conheço, tenho pessoas amigas deficientes de várias áreas de deficiência. Superam-se, são campeões da vida diariamente. Como é que o mundo ouvinte ainda se consegue lamentar? O mundo ouvinte… Desculpem, eu digo muitas vezes o mundo ouvinte, o mundo ouvinte porque se não se consegue distinguir, não levem a mal. O mundo “normal”. Como é possível se lamentarem? As pessoas deficientes superam-se de tanta coisa. Eu não queria falar, mas por exemplo, esta menina, a Raquel, tem um irmão que tem uma deficiência. É uma pessoa que faz tudo pela vida, nunca vi ninguém o ouve a lamentar-se. É por isso que acho que o mundo ouvinte, o mundo normal, às vezes, não dá o real valor do que é a verdade. Eu já fui ouvinte, já estive no mundo real, no mundo normal. Hoje em dia sei avaliar melhor as coisas, talvez dê mais valor às coisas. Ao bocado, estivemos a falar do meu feitio com alguns dos meus colegas, sim, eu acho também que é um bocado isso. Eu sou uma pessoa um bocado revoltada. Desde que fiquei surdo, tornei-me uma pessoa com pouca vontade, não tinha este feitio. Tornei-me numa pessoa diferente, mais revoltado. Repito, não é com a sociedade, não é com a vida, é ver o facilitismo que as pessoas têm e não se aproveitam disso, e ver as dificuldades que há no mundo dos deficientes e as pessoas não dizerem assim “ É tão fácil podermos ajudar as pessoas deficientes”, porque é, porque é fácil. Se houver uma boa política para as pessoas deficientes, muitas das dificuldades que nós sentimos eram superáveis. Eu, por exemplo, a nível de surdez: posso dizer se o governo apostasse bem numa política especializada para as pessoas surdas, eu não digo na totalidade, 100%, mas uma percentagem de 70 ou 80% das barreiras que se deparam às pessoas surdas eram superadas. É a comunicação. Vimos, por exemplo, nos telejornais, noticiários e isso, não há legendagem ou se há é no rodapé, é diferente. O rodapé no noticiário dá uma ideia, um resumo do que estão a falar, mas se for totalmente legendado, eu sabia o que se estava a passar, não precisava de estar de perguntar “O que estão ali a dizer? não precisava. É a mesma coisa que se um telemóvel estiver a tocar, a uma pessoa surda e agora há a vídeo-chamada que é muito mais fácil, eu não preciso de estar a dizer “Olhe, pergunte ao meu amigo o que é que ele quer dizer.”, a privacidade da pessoa perde-se. Mas através da vídeo-chamada já é mais fácil superarmos isso. Por exemplo, quando eu vou meter gasolina no carro, normalmente algumas bombas de gasolina começam a anunciar de dentro para fora “Multibanco fora de serviço”, mas se puserem alguma placa ou um placar que diga “Multibanco fora de serviço”, que seja escrito, torna-se muito mais fácil. Há uma barreira totalmente ultrapassada pela a pessoa surda, não é preciso estar ali feito parvo “Ahhh não sei do que estavam a falar”. É a mesma coisa que irmos a um médico, tirar a senha para o médico. Olhe já aconteceu isso comigo, por exemplo, estar à espera do médico e a pessoa que estava no guiché anunciar que o médico telefonou a dizer que não vinha, mas eu sou um surdo, como é que eu podia saber? E a pessoa que estava lá sabia que eu que era surdo. São barreiras totalmente ultrapassáveis. Há muita coisa a ultrapassar na deficiência, e eu estou a falar só da surdez.

 

      

 

Com que idade ficou surdo?

A. R. – As 25 anos. Portanto, eu tenho tanto de surdo como de ouvinte.

 

Para acabar, se pudesse o que mudava na sociedade?

A. R. – É uma pergunta um bocado difícil… Se calhar não mudava nada na sociedade, mudava as pessoas, tentava mudar as pessoas. Eu acho que é difícil mudar a sociedade, no geral, é difícil. Se nós conseguirmos mudar as pessoas, mudamos a sociedade. Acima tudo, na minha perspectiva, o que eu acho é que as pessoas por vezes não actuam por maldade. Não actuam por descriminação no sentido que nós estamos aqui a falar. Eu acho que as pessoas não são tão más para descriminar outra, o que há é ignorância. A ignorância relaciono com a descriminação, porque entendo perfeitamente que se as pessoas que aprendessem língua gestual nas escolas, da primária até ao 12ºano conseguiam falar. Vocês com o 12ºano se calhar já falam muito bem inglês ou francês, uma disciplina que escolheram, se a Língua Gestual fosse uma língua obrigatória ou opção, nós hoje podíamos, por exemplo, estar aqui a falar com mais facilidade. Ora, isto faz parte da sociedade. Uma mudança por parte da sociedade. A sociedade mentalizar-se que todo o mundo não é igual. Eu penso que a sociedade devia olhar melhor e mais para as pessoas deficientes, quando digo deficientes não estou a falar só de pessoas surdas, deficientes em geral. Uma coisa muito importante para as pessoas surdas, é o ensino.

Eu ontem soube de um caso que me revolta. Eu tenho uma menina minha conhecida que é surda de nascença, e soube, pelos pais dela, que ela está na Universidade do Porto, está a estudar Ciências. Que é que acontece? Ela para fazer exames tem umas aulas especiais, e para ter essas aulas especiais tem que levar um intérprete com ela. Ela não sabe o que o professor está a dizer. Quem é que paga a interprete? A própria aluna. Isto quer dizer que não há uma política delineada para as pessoas deficientes. Quando se fala, por exemplo, no roteiro da igualdade, ainda há pouco tempo o Presidente da Republica fez uma sessão enorme em Santarém, o roteiro da igualdade oportunidades para as pessoas deficientes, não é verdade. É pura propaganda política, porque se houvesse uma politica boa para as pessoas deficientes isto não acontecia, uma pessoa paga como essa menina surda, paga a propina normal própria do curso mas tem de pagar outra coisa mais, tem de pagar uma interprete para lhe dizer o que estão a falar. Está errado, completamente errado. É a mesma coisa que eu como pessoa surda… Não sei se será descriminação, não sei que palavra aplicar. Eu como pessoa surda não utilizo o rádio, não necessito de rádio, mas pago a taxa de rádio. Porque a taxa de rádio está incluída na facturação da electricidade. Está errado, as pessoas surdas deviam ser sintonizadas. Surdas, desculpem, eu falo de pessoas surdas, queria falar de deficientes em geral. Deviam ser abrangidos por uma lei que os protegesse contra isto. Num regime democrático isto não se explica. Estamos a pagar uma coisa que não adquirimos. Isto são casos, como há muitos outros. Por exemplo, a nível do ensino. Quando uma criança surda vai para a escola, essa criança tem que ter aulas especiais. A criança está englobada numa lei, lei de 13 de 2008 ou 2007. O que é que acontece? Há escolas específicas para pessoas surdas em Portugal. Pronto, eu moro em Rio Tinto, naquela zona não há nenhuma escola para pessoas surdas. Então eu tenho de me deslocar a uma escola mais longe, por exemplo, tenho que vir para a escola de Paranhos. Para quê? Para ter acesso a Língua Gestual ou a interpretes de Língua Gestual. Neste caso, uma pessoa que tem um filho surdo, tem que ir para uma escola mais longe. Emprega deslocações, haver possibilidades de se deslocar, mas o governo ou as políticas do governo não dizem assim “Estas pessoas têm que ter um subsídio para poderem continuar no ensino”. O que é que acontece? O pai, se for uma pessoa que tem uma certa dificuldade na vida, vai acabar por pôr o filho numa escola normal. Como há muitos casos. Uma pessoa surda numa escola normal, porquê? Porque não há possibilidades de o pôr numa escola própria para pessoas deficientes. Não há. Não há uma única que abranja assim “O pai vai terá um subsidio, qualquer coisa para o transporte”. É fácil fazer isso. É fácil. Se formos a ver aqui nas grandes cidades, Porto, Lisboa, Coimbra, …vemos tantas pessoas surdas fora das grandes cidades, nas aldeias, numa vila. Como é que essas pessoas fazem? Vivem em completo isolamento, frequentam escolas de pessoas normais e depois o que é que acontece? Nem sabem Língua Gestual, nem têm oralidade suficiente para ter uma conversa. E é isso mesmo que muitas vezes ainda se vê, a pessoa surda que não tem estudos, que tem não tem um trabalho adequado. Devem ver ainda a pessoa surda como uns coitadinhos. É preciso saber que a pessoa surda, desculpem não quero falar só da pessoa surda mas da deficiência em geral, pode desenvolver-se, se calhar mais capacidades que uma pessoa dita normal. Mas se não lhes dão oportunidade... Há muitas dificuldades para as pessoas deficientes, muitas dificuldades. Para os surdos também. É a realidade. No meu caso, por exemplo, eu vivi no mundo dos ouvintes, eu sei que tive de me adaptar ao mundo ouvinte. Mas também tenho de dizer, e porque não o contrario? Porque é possível, porque eu não consigo nunca mais na vida ouvir, mas é possível as pessoas comunicar comigo. Então não acho que seja eu a ter de me adaptar, mas as pessoas a mim. Agora se exigir, aí sim, é um erro da minha parte. Mas é preciso adaptar…

 

Tem algum apoio do estado?

A. R. - Apoio do Estado? Como eu já disse, os apoios do Estado existem, mas são totalmente insuficientes. Como disse antes, as pessoas surdas não estão englobadas numa deficiência capaz de certos apoios por parte do Estado. Surdez é uma área diferente das outras deficiências, como a visual ou motora recebe outros apoios que a pessoa surda não tem. Dependa das áreas de deficiência. Se for deficiente por paralisia cerebral, tem certos apoios, se for invisual tem outros apoios. É diferente, a politica não é toda igual para as pessoas diferentes.

As pessoas surdas têm algumas regalias. Mas eu posso dizer que as regalais que eu tenho também por outro lado são quebradas de outra maneira. Por exemplo, eu tenho mais gastos que uma pessoa normal. Eu se não tiver acesso, e não tenho ao que estão a falar no telejornal, eu tenho de comprar um jornal para estar actualizado. Uma pessoa ouvinte pode não precisar de comprar o jornal, tem um rádio, tem a televisão, é dispensável o jornal. Tenho um gasto. Eu se quiser pôr um aparelho para ouvir algumas coisas, algum som, eu tenho de comprar o aparelho, não terei apoio do Estado. Tenho de pagar as pilhas para o aparelho, não tenho apoio. E outras coisas mais. E eu por exemplo, uso a vídeo-chamada, o governo não possibilita eu ter descontos nisto ou naquilo. É a própria comunidade surda que luta para ter certas regalias através de empresas e não do Estado, de empresas isoladas. O caso que estava a falar ao bocado, têm apoios especiais para as pessoas surdas, sabem perfeitamente que as pessoas surdas têm de comunicar de outra maneira, mas não o Estado. O problema é esse mesmo, o voluntariado neste caso, eu falo porque faço voluntariado, muitas vezes substitui o Estado para as pessoas deficientes. O Estado vale-se disso mesmo, do voluntariado. São por exemplo os Bombeiros…digo os Bombeiros, podia falar de pessoas que diariamente lutam nas associações como a SOL, associações locais. O voluntariado, em muitos sentidos, faz uma politica melhor do que o próprio Estado. O Estado normalmente aproveita-se desse voluntariado para fazer propaganda politica.

Quer ver um caso? Quando há eleições todos os partidos políticos apelam ao voto, ao voto de consciência. A própria comissão eleitoral apela ao voto de consciência a qualquer cidadão e eu pergunto: eu posso votar em consciência? Nunca na vida. Se eu não tenho acesso aos debates, como é que eu posso ir votar? Posso ler algumas coisas; por exemplo quando vejo o programa da RTP1, “Prós e Contras”, eu não sei o que estão a falar, não é legendado. Mas possivelmente para o mês que vem já vão ver ali um intérprete no “Prós e Contras”, bom mas isso já é outra coisa. Mas até agora todos os programas como o “Prós e Contras” não há, não há legendagem, não há intérprete. Eu sei que estão a falar de temas que são muito importantes na sociedade portuguesa. Lá está, eu acabo sempre como um ignorante. O próprio Estado torna ignorante as pessoas. Quando o Estado diz que quer politicas melhores para as pessoas deficientes, isso não é verdade. É o próprio Estado que fomenta isso. Devia ser uma preocupação do Estado, por exemplo, quando há uma comunicação ao país, o Primeiro-ministro e o Presidente da Republica, já não fazem isso, normalmente não há interpretes. Mas se formos ver de outra maneira, por exemplo o PS fez agora um congresso em Espinho, uma coisa que chamou a atenção, um ecrã gigante porque estava lá uma intérprete de Língua Gestual. Como partido político preocupou-se. Como Estado não se preocupa. Porquê? Duas políticas no mesmo partido. Estou a falar do PS, podia falar de outro partido atenção. Os deputados da Assembleia da República nunca fazem uma sessão com uma intérprete lá, mas assim através da televisão. Se eu quiser assistir a uma sessão ao vivo, não sei o que estão para ali a discutir, não percebo o que estão a dizer. Tenho de estar ligado a aparelhos. Está errado. Deviam possibilitar estas coisas, eu falo de surdos, podia falar de outras deficiências, mas a minha área é a surdez.

 

         

 


 No dia 8 de Maio de 2009, fizemos uma pequena entrevista a uma aluna da Escola EB 1 de Catassol.

 

 

Inês Rosa

8 anos

Estudante

 

            

Gostas da tua escola, Inês?

Inês Rosa – Gosto porque tem lá jogos onde podemos brincar e também é muito grande e lá nós podemos andar por todo o lado.

 

E tem muitas actividades diferentes. Tem muitos animais não tem?

I. R. – Sim e temos uma quintinha onde plantamos cebolas, favas... Essas coisas.

 

Muito bem. Antes de andares nesta escola já alguma vez tinhas estado com algum menino deficiente?

I. R. – Não.

 

Sabemos que na tua escola existe um grupo de meninos autistas, sabes o que é o autismo?

I. R. – Não.

 

Costumas estar com esses meninos?

I. R. – Costumo, na hora do almoço, quando estamos a comer.

 

No refeitório?

I. R. – Sim.

 

Quando estas no refeitório com esses meninos consegues notar alguma coisa de diferente quando estas ao pé deles a comer?

I. R. – Eles têm dificuldades em comer, também fazem coisas diferentes de nós...

 

Fazem coisas diferentes como? Têm algumas atitutes que voces não têm?

I. R. – Ás vezes, um menino gosta mais de frango e tira das outras pessoas.

 

Dos outros meninos que estão à beira?

I. R. – Sim, mas os autistas é que tiram.

 

Achas que se eles pudessem estar mais com os meninos “normais”, como tu, conseguiriam melhorar?

I. R. – Se calhar.

 

Quando olhas para esses meninos, o que é que notas de diferente logo à partida? Há alguma coisa que te chama à atenção? No seu comportamento?...

I. R. – O seu comportamento vejo que é diferente do nosso...

 

Eles fazem coisas que voces não fazem? Dá exemplos.

I. R. – Por exemplo, há um menino que vai buscar coisas ao lixo... Nós não fazemos isso. Há uns meninos que andam sempre com um papel na mão, na boca e isso. Há também um menino que vai sempre a correr para a nossa sala e há outros tipos de comportamento que eles têm.

 

Quando esse menino, que tu agora falaste, vai para a vossa sala o que é que tu achas que o leva a fazer isso? Achas que o que ele quer é estar com vocês e não quer estar na Unidade com os meninos iguais a ele?

I. R. – É assim eu acho que ele gosta de estar na Unidade, mas às vezes vem para a nossa sala porque deve gostar também de estar connosco. É diferente da Unidade, da sala onde ele costuma estar com os outros meninos autistas.

 

E na hora do recreio? As crianças adoram a hora do recreio, a parte preferida do dia é quando estão no recreio... Os meninos autistas brincam todos juntos, com vocês? Ou se não com quem brincam?

I. R. – Eu não os vejo muitas vezes no recreio. No recreio, quase sempre, eles não estão lá... eles também têm aulas com as auxiliares mas só às vezes é que vão lá para fora. Brincam todos juntos mas, principalmente, brincam com as auxiliares... Mas às vezes fogem delas.

 

Conheces alguma pessoa que trabalhe com os meninos autistas? 

I. R. – Conheço.

 

O que é que essa pessoa faz, lá na escola?

I. R. – Ela é auxiliar dos meninos autistas.

 

         

 

 

Publicado por Grupo 3 às 13:34