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Domingo, 26 de Abril de 2009

No dia 5 de Março de 2009, pelas 18 horas, o grupo entrevistou a Sra. Susana Moreira, mãe do Rafael, um menino autista. Esta entrevista foi uma grande ajuda na medida em que nos ajudou a compreender melhor quais as maiores dificuldades que as pessoas afectadas pelo autismo têm.

 

Susana Moreira

36 anos

Assistente administrativa

     

Quando e como é que descobriu que o seu filho sofria de autismo?

Suana Moreira - Foi por volta, dos 16 18 meses de idade. Começou a regredir. Ele já falava com 16 meses, portanto, deixou de falar, deixou de andar, deixou de brincar e, nessa altura, nós consultamos um pediatra, que não era especializado, mas era o pediatra dele de nascença, que o encaminhou para uma médica de desenvolvimento. Nessa altura, tinha 18 meses. Durante 3 meses foi feito um estudo em que se chegou, realmente, à conclusão que ele era autista.

 

Como é que reagiu a noticia?

S. M.- É assim, no inicio estávamos muito confusos, porque não sabíamos o que é que ele tinha, portanto ele era uma criança normalíssima, tudo normal, no entanto o desenvolvimento começou a regredir, a regredir e nós estávamos bastante preocupados porque não sabíamos o que é que ele tinha. Enquanto não soubemos o que ele tinha, andámos muito nervosos, muito alterados, muito angustiados, porque queríamos saber exactamente o que é que ele tinha. Fez muitos exames genéticos, exames à visão, à audição, tudo, porque pensamos que ele era surdo e mudo. No início podia ser até só surdez, mas não. Pronto, fez o exame à audição, estava tudo normal, ou seja andávamos mesmo angustiados, mas após saber o que ele tinha, foi, realmente, um grande alívio. Sinceramente, para nós todos. Foi um alívio para a família toda, porque finalmente conseguimos direccionar as nossas forças para que investíssemos no desenvolvimento dele de uma forma correcta, porque até lá não sabíamos muito bem o que é que havíamos de fazer. Nessa altura, já ele tinha mais de 24 meses quando me disseram que era autista e nós aí já procurámos as associações certas, as terapias certas para ele, portanto, já há mais um encaminhamento e um grande alívio também por saber o que é que ele tinha e para podermos tratar dele. Até lá foi complicado.

 

Como considera a sua adaptação, a da família, sobretudo a sua como mãe e do pai em relação ao seu filho?

S. M. - Se custa muito? Custa. Todos os dias é diferente. Ele já tem oito anos neste momento, mas é muito complicado, porque nós queríamos que ele desenvolvesse de uma forma, mas nunca é como a gente quer. Todos os dias há coisas novas, para ele e para nós. Coisas que ele quer que a gente, muitas vezes, não sabe o que é, e ele chora e faz birra, não é bem birra, mas como não se consegue explicar melhor de outra forma, ele tenta demonstrar estando triste, ou chorar, ou às vezes a partir coisas. Gosta muito de partir coisas. É difícil compreendê-lo, portanto, é complicado. E nós temos que nos adaptar, realmente, todos os dias a essa situação. É a idade e a evolução dele de uma forma diferente da dos outros meninos.

 

Nós sabemos que a característica fundamental do autismo consiste na dificuldade em comunicar e é esse o tema do nosso trabalho. Gostávamos de saber como é que a senhora comunica com o seu filho.

S.M. - É muito complicado. Ele não fala. Ouve, mas não entende muita coisa ainda. Ele só sabe ordens básicas: o “Não”, o “Sim”, o “Vai buscar isto”, não todas as coisas porque ele não consegue entender. Normalmente, eu já me habituei, eu, o pai, os avós já se habituaram a lidar com ele. Com certeza que para as pessoas de fora é difícil, mas para nós é mais fácil, porque sabemos que quando ele tem uma determinada emoção , ou porque está a rir, ou porque está a bater palmas, ele tem muitas expressões… de quando está feliz, bater nas pernas… Nós sabemos, mais ou menos, o estado de espírito dele. Quando quer alguma coisa, ela tenta levar-nos lá. Ele não pede, falando, mas ou pega na nossa mão, levando-nos lá. Se quer sumo ou abre o frigorífico e tenta ver o que é que há no frigorífico e leva-nos lá para abrir. Ele não consegue abrir as embalagens, não tem aquela molestidade fina. Mas leva-nos ao local, ou ele já sozinho, agora com 8 anos, já vai buscar. Vai ao armário, já escolhe o que quer, já vai buscar aquilo que quer, os brinquedos igualmente. Embora ele não goste muito de brincar com brinquedos. Gosta mais de coisas do dia-a-dia, de embalagens, por exemplo.

 

Quais são as maiores dificuldades que sente?

S. M. - É assim, às vezes ele chora e a gente não sabe o que é que ele tem. Se está doente, se tem febre, febre a gente sabe porque consegue detectar. Se é uma dor de ouvidos, se é uma dor de dentes, não consegue mesmo. É difícil. Muitas vezes, a gente pensa que ele está a chorar e não sabe o que tem. Ainda agora no fim-de-semana chorava, chorava, chorava. Estava muito deprimido e a gente pensava que ele estava doente. Levamo-lo ao médico, e o médico disse “Olhe, ele não tem nada. Está deprimido, está com uma depressão.” Estava com um mal-estar, mas não tinha nada, não tinha dores de ouvidos. É muito difícil saber o que é que ele quer ou o que é que ele tem. O que ele quer a gente consegue chegar lá, porque ele tenta nos levar, de uma forma ou de outra. Agora, o que ele tem é que é mais complicado de compreender. Muitas vezes, a gente pensa que é uma coisa, mas não é e, às vezes, eu até não consigo sozinha. E ligo ao meu marido “Olha, eu não sei o que é que ele tem, está farto de chorar.” e ele diz “Já viste se é isto, se é sede”. Muitas vezes é muito complicado lidar com ele e ele, normalmente, quando quer mesmo alguma coisa, ou quando ele tem, realmente, alguma coisa, ele olha nos olhos. É a única situação que ele nos olha nos olhos, porque ele nunca olha para nós. Raramente. Desvia o olhar. Mas quando ele quer mesmo e está aflito, porque quer qualquer coisa, ou porque lhe dói qualquer coisa, ou tem qualquer coisa, ele olha com um ar mesmo aflito. Mesmo aquele olhar, muito concentrado e quer que a gente olhe para ele para saber se conseguimos descobrir. Muitas vezes conseguimos, mas é muito difícil. Bastante difícil.

 

Já notou alguma evolução no comportamento dele?

S. M. - Evolução no comportamento? É difícil. É difícil, porque ele não evoluiu muito. São crianças que não têm uma evolução muito grande. É muito lenta, bastante lenta, de anos. Se calhar nunca vão evoluir o que a gente pretende, mas nota-se principalmente na comunicação, porque ele anteriormente era incapaz de pedir, era incapaz de nos levar onde queria, era incapaz de se manifestar. Agora já se manifesta quando não quer estar em determinado local. Já nos leva onde ou o quer que a gente faça ou lhe ajude a fazer. Já mostra mais as emoções, coisa que ele não mostrava. Isolava-se imenso. Agora não, já anda connosco para todo o lado, mas evoluir assim a nível de desenvolvimento… A nível de comunicação desenvolveu bastante, nós conseguimos compreendê-lo bastante. Se calhar nós é que não nos adaptamos à forma dele ser. Houve realmente uma evolução. A nível de comportamento em si continua o mesmo. É muito complicado. É muito difícil.

 

Costuma dizer-se que os autistas vivem num mundo à parte do nosso. Concorda completamente com esta questão?

S. M. - Concordo plenamente. Embora com a idade e com o esforço nós conseguimos já leva-lo a todo o lado. Mas ele anteriormente não ia, não entrava numa loja, não entrava num café. Não queria ninguém dentro de casa. Foi também nessa situação que nos começamos a descobrir que ele realmente poderia ser autista. Porque sempre que ia alguém a nossa casa, ele metia-se no quarto aos gritos e não se calava mais até aquela pessoa sair de lá de casa. Chorava, berrava gritava, atirava com tudo para o chão, tinha três anitos quando começou a fazer isso, mas nós já sabíamos qual era a doença dele. Agora não, já aceita as pessoas em casa, já vai ao café. Há dias que não vai, há dias que não entra e não entra mesmo, não adianta nada. Já consegue conviver, já vai ao centro comercial e já se porta bem. Já não faz aquelas birras, não grita muito. Ele anteriormente isolava-se muito, agora não. Agora gosta de ter os momentos dele de isolamento. Tem o quarto de brincar só para ele e é lá que ele passa a maior parte das horas e não quer que a gente vá lá quando está mesmo deprimido. No entanto, quando quer brincar é para lá que ele nos leva e só quer uma pessoa de cada vez. Não gosta de ter muita gente, ou é o pai ou é a mãe, ou então uma prima, porque ele gosta muito das primas. Tem seis primas e ele adora as primas. As primas são tudo para ele, e ele para elas.

      

Já alguma vez se sentiu desesperada?

S. M. - Já. Muitas. Muitas vezes. Querer saber o que ele tem e não conseguir. Desde andar quase uma semana a levá-lo para os hospitais todos e mais alguns e não saber o que é que ele tem. ele estar num completo desespero de gritar dia e noite, por exemplo. E soubemos o que ele tinha. Estava com uma depressão e estava com ataques de pânico e, finalmente, um médico, houve um médico que conseguiu descobrir o que é que ele tinha. Eram ataques de pânico. Deu-lhe medicação para tal, mas nessa altura eu estava mesmo desesperada. Uma coisa impressionante. Já houve alturas com crises muito grandes, um autêntico desespero mesmo. Quando eles estão com crises, partem tudo, batem em toda a gente, magoam toda a gente. É muito difícil, mas, graças a Deus, agora cada vez mais com a idade tem diminuído essas crises.

 

Já há aí uma evolução…

S. M. - Já, e nós também já contornamos melhor as crises. Eu acho que na altura ele fazia essas crises para chamar a atenção, talvez, e agora nós já o conseguimos controlar e dar o que ele quer. Depois ele tinha muitas situações que a gente não compreendia. Ele queria tornar as coisas mais simples, ele manifestava-se partindo tudo. Agora não digo que não o faça, talvez uma vez por mês, duas vezes num mês…

 

O Rafael frequenta alguma instituição especializada de ensino?

S. M. - O Rafael frequentou sempre. Ele já esteve até em terapias da fala. Tem terapia ocasional, tem motricidade e uma psicóloga. Neste momento, está no segundo ano do ensino básico, do primeiro ciclo. Está numa escola normal com ensino especial, que é o ensino adequado aos autistas, com ensino teach, portanto, é uma forma de trabalhar com eles diferente. Cá em Portugal é o que a DREN nos dá e ele está nessa sala aqui na Maia sede, que é só com meninos autistas. Só meninos autistas. Neste momento estão dez. Dez na unidade especial e depois nessa unidade especial estão determinadas horas do dia. Tem lá as terapias da fala, tem lá psicologia, tem lá terapia operacional… A DREN paga aos técnicos para lá irem e depois vão sendo integrado aos poucos no ensino regular. Ele tem uma turma no ensino regular, entrou o ano passado para o primeiro ano, este ano está no segundo. Ele vai, acompanha os meninos da turma dele normal. Vai três quartos de hora, conforme o tempo que der. A professora vai tentando aproveitar o tempo que der. Não está a dar matemática, nem português, nem coisas assim, mas faz os desenhos dele, tenta cumprir as ordens que lhe dão, os trabalhos que lhe dão. Tem informática também, umas coisas com o computador, que eles gostam muito de computadores. Adoram computadores e pronto, está numa unidade especial, mas no ensino normal. Está na escola normal, só que tem uma unidade só com meninos autistas. Eles entram as nove e saem às seis e meia. Estão lá esse bocadinho do dia. Às seis e meia vêm embora. São três professoras na unidade especial. Todas elas especializadas em autismo e todas elas especializadas no ensino teach, que é o ensino que se está a praticar lá neste momento. Embora já haja outro tipo de ensino para os autistas. Agora abriu em Lisboa o ensino ACA, também um sistema de comunicação. Trabalham muito à base de símbolos, muitos símbolos. Muitas fotografias. É um ensino que é individualizado. Eles têm umas divisões na mesinha deles. Estão ali concentrados, porque eles qualquer coisa chama logo à atenção. Chama à atenção tudo menos aquilo que eles estão a fazer. O Rafael quando não gosta, não gosta e não olha mesmo. Ele está a pintar a olhar para o lado, porque se não quer pintar não vale a pena.

 

Como é que foi a adaptação do Rafael à nova escola?

S. M.- Á unidade? Ele gosta. Ele gosta muito. Ele estava na pré-escola no ensino normal. Normalíssimo, com uma educadora especial que ia lá duas, três vezes por semana. Era em Gueifães, mas agora passou realmente para a primária. Gosta muito. Talvez a exigência seja outra e então aí já não lhe interessa. Há dias que está bem, há dias que está mal. Normalmente está bem. Gosta muito. Vai a correr. Ele quando vai à minha frente e entra na sala direitinho, está bem e eu sei que vai passar um dia bom, quando não quer, nem o tiro do carro sequer. Tem que ser à força. Mas ele gosta, normalmente gosta da escola. Gosta muito da escola. Gosta muito dos meninos da escola. Gosta muito dos meninos da turma. Na escola já é mais complicado, porque tem os outros meninos… Primeiro que eles o aceitem é um bocado difícil.

 

Quais são as actividades que o seu filho consegue desenvolver no dia-a-dia sem a ajuda de ninguém?

S. M.- Sem ajuda de ninguém? Actividades? Nenhuma. É difícil. Nenhuma. Gosta muito de uma actividade que ele faz, mas tem que ser coma nossa ajuda. Sempre. Todas elas têm que ser com a nossa ajuda, porque ele não consegue. Pronto, tem um grande atraso de desenvolvimento a nível da motricidade e dificilmente… Ele não abre uma garrafa de coca-cola, não consegue. Há meninos que conseguem. Há meninos lá que conseguem. Falam, não fazem frases mas falam, ele não. Não consegue. Gosta muito de fazer encaixes. Aqueles cortezinhos de encaixar o carrinho, ou uma pêra, ou uma maça. Ele gosta e é a única actividade que está com atenção. Fazemos em casa. Na escola não sei se fazem, pronto, têm outro tipo de actividades, mas em casa nós fazemos muito isso. Ele gosta muito. Gostava muito de legos quando era mais pequeno, portanto continuamos a investir nessa situação, porque é a única coisa que lhe chama a atenção e o põe mais calmo. Gosta muito dessa actividade, mas sozinho não consegue. Nós temos que lhe dar aquilo para a mão e ele depois consegue encaixar lá no meio do quadro. Ele consegue encaixar o bonequinho, mas dificilmente. Às vezes temos que insistir mas consegue. Sozinho não.

 

Já alguma vez sentiu que o seu filho era alvo de preconceito?

S.M. - Já. Este ano, na escola. Sinto bastantes vezes, mas agora não ligo, não é?! Mas na escola ele foi muito mal tratado. Este ano principalmente. Tive que entrevir, mas a situação normalizou-se, mas fora também existe preconceito. As pessoas não gostam. Estas crianças muitas vezes não identificam o local onde estão, não é? Às vezes estão na via pública e fazem coisas que não devem. Ele bateu num senhor, este ano, no Verão. Bateu num senhor, num braço, e o senhor tratou-o muito mal, mas pronto. Eu tentei explicar, mas o senhor não quis compreender, portanto também não expliquei mais. As pessoas olham muito… Há pessoas, por exemplo colegas e famílias, que nos convidavam para irem a casa delas e agora deixaram de nos convidar porque temos um filho autista. Portanto, não gostam da atitude dele e da forma como ele reage em público. Ele grita muito, faz muito barulho, porque está excitado, ou porque não quer estar, ou porque está num ambiente diferente, ou porque está muita gente ou porque está pouca, não interessa. Ele às vezes vai bem e está bem, outras vezes vai mal e está mal. No Sábado, queria entrar num supermercado para ir às compras e tentei cinco vezes. Só à sexta é que ele entrou. Só à sexta. Fui para casa, voltamos, fui para casa, fui dar uma voltinha, fomos tomar um café, voltamos… Há sexta vez ele entrou num supermercado e esteve bem, mas outras vezes não quer. As pessoas tentam não compreender. Há outras que compreendem muito bem. Outras não querem…

 

Se pudesse o que é que mudava na sociedade, tendo em vista a integração dos autistas?

S. M. - Eu acho que há falta de conhecimento. Há falta de informação. Na sexta-feira, vim aqui a uma reunião à Câmara, precisamente por causa disso. Nós temos direitos que nem os conhecemos e as pessoas também não informam porque pensam que os pais sabem tudo, ou que os outros sabem tudo. Realmente, eu acho que é a falta de informação, porque as pessoas pensam “Olha coitado, olha mais um deficiente.” É só isto e não conseguem identificar. Não quer dizer que toda a gente tenha que identificar, mas pelo menos os médicos. Já fui a vários médicos, já fui a vários hospitais que não sabiam o que é que era o autismo. Eu acho que isso não é normal. Já me disseram “Olhe, quer me explicar mais um bocadinho?” e eu disse “Olhe, tem de ter atenção a consultar o Rafael, porque ele é autista. Não gosta que lhe toquem. “ e ele “Ahh autista? Mas não me quer explicar melhor quais são os sintomas dessa doença?”. Eu não acho isso normal num médico perguntar quais são os sintomas desta doença.

       


No dia 12 de Março de 2009, quinta-feira, no nosso grupo deslocou-se até à Escola Básica da Maia a fim de realizar uma entrevista com a professora de educação especial, Isabel Henriques. Aqui em baixo vão encontrar o suporte escrito da entrevista acompanho com algumas fotografias.

 

Isabel Henriques

50 anos

Professora de educação especial

 

   

 

O que a levou a escolher esta profissão?

Isabel Henriques – Eu vim para aqui por acaso. Sempre trabalhei com alunos com algumas dificuldades. Estava com dez anos de carreira, eu já tenho trinta de serviço, e perguntaram-me se eu gostava de trabalhar com alunos num centro de reabilitação no Porto. Os alunos tinham mais de seis anos, nesse centro de reabilitação, e deficiências variadas. Paralisias cerebrais, surdos, cegos, vários tipos. Lá faziam um curso profissional e tinham algumas aulas comigo. Dava-lhes português, matemática, as coisas básicas. A uns para não esquecerem e a outros para poderem saber mais alguma coisa. Eu trabalhei lá dois anos com esse tipo de alunos. Os alunos que me faziam mais confusão, no sentido em que não sabia trabalhar com eles, eram os cegos. Eu não tinha material para trabalhar com eles. Contudo, entrei. Havia alguma dificuldade em entrar, mas consegui. Entrei, fiz o curso em dois anos em especialização da deficiência visual e multidificiência. Quando acabei o curso vim trabalhar para a Secundaria da Maia, porque havia alguns cegos. Gostei e continuo a trabalhar. Entretanto fiz outra especialização.

 

Sentiu alguma dificuldade no curso?

I.H. - Não. Na altura era um curso de dois anos. Não podem comparar os cursos de agora. Agora são cursos de um ano em tempo parcial. Na altura era dois anos a tempo inteiro, ou seja, nos tínhamos dispensa de actividade lectiva. Deixavam-nos trabalhar com alunos e estávamos na escola, durante dois anos. Para concorrer a este curso tínhamos de já ser professores, por isso, era já uma pós-graduação. Neste momento, existem alguns cursos deste género. Existem vários em escolas públicas e privadas, mas em horário pós-laboral e durante um ano, por isso, não posso compará-los. Quando uma pessoa está num curso a tempo inteiro não é a mesma coisa que estar um ano num em horário pós-laboral, alguns só Sextas e Sábados. São os cursos que agora existem. Não tive dificuldade em fazer o curso, é evidente. É um curso como outro qualquer de pós-graduação. Na altura, nos tínhamos professores de diversas disciplinas, como agora há, e era aprofundado na área que nós tínhamos escolhido, que era a deficiência visual, no meu caso, e na multidificiência. Na multidificiência nós não incluíamos muito os alunos com deficiência mental, era mais surdos/ cegos e a deficiência visual com a deficiência mental, por exemplo. Era muito na base que tinha de ter deficiência visual. A multideficiência não englobava os alunos com tipo de problemas como o autismo. Esses estavam englobados todos na deficiência mental, por isso é que eu me senti na necessidade de fazer um curso de deficiência mental, não pelos autistas, mas porque cada vez há menos, felizmente, alunos cegos. As crianças cegavam, inicialmente, por problemas de parto. Havia muito poucos casos de crianças de cegueira congénita. Elas cegavam ou porque a mãe tinha sífilis e ao nascer provocava essas deficiências, ou porque eram prematuros. Iam para as incubadoras e tinham excesso de oxigénio. Agora isso já não é assim. Há muito mais cuidado e, como tal, já não provoca problemas nos olhos. Há muitos outros casos, mas estes eram os mais comuns. Agora, há casos de cegueira mas não deste tipo. São cada vez menores, felizmente. Como eu continuava a gostar muito de trabalhar com alunos com deficiência, optei por fazer uma especialização na deficiência mental, para continuar com este tipo de alunos. Tanto que quando eu vim para a Maia tinha quatro ou cinco alunos cegos e agora, aqui na Maia, não há nenhum.

 

No seu dia-a-dia, com que tipo de crianças trabalha?

I.H. – Essencialmente com deficiência mental. Essencialmente, não estou a dizer que são só, mas essencialmente com deficiência mental.

 

Quais são as maiores dificuldades que sente ao trabalhar com este tipo de crianças?

I.H. – Não há grandes dificuldades. A maior dificuldade que se me depara não é trabalhar com as crianças, é o depois. As crianças crescem. Isto é uma escola, aqui estão integrados. Tem professores de ensino especial, vão para as turmas em algumas disciplinas e as coisas correm todas muito bem. Só que os meninos crescem e depois? Aos dezoito anos para onde vão? É essa a nossa preocupação. Para onde é que eles vão quando saem aqui da escola? As hipóteses de saída de emprego são sempre muito poucas. Vocês sabem que, neste momento, para vocês a possibilidade de emprego também é difícil, imaginem para alunos com deficiência como é difícil ter emprego. Arranjar alguém que esteja disposto a aceitá-los. Há vários centros. Nós, normalmente, fazemos protocolos com a Vilarinha, que é um centro de formação para crianças com deficiência mental, mas eles também estão cheios. Depois, há outro em Gaia, em Arcozelo, mas é complicado entrar. Eles até entram e até fazem os cursos, mas depois aquilo implica uma colocação. Eles fazem o curso com o objectivo de depois irem trabalhar e o trabalho é sempre muito complicado de arranjar. O trabalho protegido está cheio. Quando falamos em trabalho protegido estamos a falar de instituições que têm salas para esses ex-alunos estarem lá. Deixam de ser alunos e passam a ficar lá a trabalhar como se fosse uma empresa. As empresas levam para lá material para eles terem que fazerem ali, mas depois não saem. Ficam ali a vida toda. Se ficam ali toda a vida só saem quando morrem ou quando se reformam, ou seja, não há espaço para outros. Se não se criarem novos centros destes, não há espaço. É essa a grande preocupação. Não é a preocupação em termos escolares, porque eles estão bem integrados. Acho que somos capazes, da forma como as cosias estão estruturadas, de fazermos um bom trabalho. O que nos preocupa, a mim e a todos os professores de educação especial, é o depois. Quando saem das escolas para onde vão? Vão para casa e ficam sem fazer nada? E os pais deixam de trabalhar para estar com eles? Como é que é a vida deles depois em casa? Esta é a angustia que nós todos sentimos. Procuramos sempre minimizar e temos tido sucesso em muitas colocações, mas angustia-nos a todos.

 

Acha que existe vantagens na integração destes alunos nas turmas regulares?

I.H.- Tem vantagens e desvantagens. Penso que tem mais vantagens do que desvantagens. É assim, numa escola pública, havendo material para trabalhar com eles, eles estão bem e fazem integração com outros alunos, ou seja, estão com crianças da mesma faixa etária, aprendem outros modelos. A modelagem é muito importante para todos nós. É aprender a fazer vendo. Eles aprendem a comportar-se, aprendem as regras, socializam e interagem com os outros de uma forma mais correcta. Isto são as vantagens. As desvantagens são, por exemplo, num centro como o Leonardo Coimbra, que é um centro só para crianças com deficiência mental, como aquilo é um centro só dirigido para esse tipo de coisas, se eles quiserem ter hipismo, que é uma coisa que faz bem aos meninos, eles até têm, nós não temos. Se eles quiserem ter piscina, fazem protocolos com as Câmaras e vão com eles todos para a piscina. Em termos de desenvolvimento físico, se calhar eles estão melhores, mas depois falta-lhes a outra parte que é a integração com os outros, é o convívio, é o brincar, são todas essas cosias. Por isso, eu vejo mais vantagens que desvantagens, mas há casos que é importante que haja escolas especificamente para essas crianças, principalmente quando se trata de bem-estar. Há meninos que, durante toda a sua vida, a única coisa que fazem é a alimentação, o mudar de roupa, e nós na escola não podemos ter esse tipo de cuidados, é exigido mais que isso. É importante que haja centros em que são estimulados com técnicas muito próprias. Que dormem e que relaxam e tenham vários centros de trabalho. Deve haver um mix, como eu costumo dizer. Deve haver de tudo, mas é importante a integração, claro. Eu se tivesse um filho com deficiência gostaria que ele estivesse integrado.

 

 

   

 

Tem algum caso que a marcou?

I.H. – Tenho algum caso que me marcou? Bom, eu até aqui, até há três anos atrás, trabalhava essencialmente com alunos com deficiência visual. Todos eles me marcaram muito, principalmente porque estão na faculdade. E é giro saber que com o trabalho que fazemos com eles, eles conseguem atingir todos os objectivos que se propõem. Claro que isto depende muito do que o que as pessoas querem, como acontece com um jovem normal. Desde que a escola consiga dar materiais de apoio necessário para eles, eles fazem como os outros, não são mais burros, até se calhar são mais espertos noutras coisas. Tem uma audição um bocadinho mais desenvolvida, porque tem que treinar. Todos estes casos marcaram-me muito. Fico muito contente quando aparecem aqui. Normalmente, tenho contacto com todos. Também gosto muito dos meus deficientes mentais que me foram aparecendo e que fui colocando e agora estão a trabalhar. Às vezes mandam-me um mail no Natal, com a ajuda da mãe, a dizer qualquer coisa. Temos vários casos de sucesso aqui na Maia e isso é muito importante. Temos um aluno na escola da Maia que está colocado na piscina de Gueifães, está lá a trabalhar. Temos uma aluna, também, que passou pela escola Secundaria da Maia, também com deficiência mental, que está na Lipor. Temos outro que está no Fórum Jovem. Vamos tendo vários colocados e isso é muito importante. É importante para nós porque nos sentimos bem e é importante para eles, também, porque mostra que gostam e são capazes, apesar de tudo.

 

Tem algum caso na família com uma deficiência semelhante?

I.H.- Felizmente não, mas é normal. Uma grande parte das pessoas que eu conheço que trabalham neste ramo tiveram alguém que as marcou ou familiares. Eu tenho-vos a dizer que nem familiar nem amigo, nunca tive ninguém com nenhum problema. Fui mesmo para isto por acaso. Primeiro porque gostava, sempre lidei com crianças difíceis e achava piada, mas depois foi uma oportunidade que surgiu e eu gostei e decidi continuar.

 

Acha que esta escola tem boas condições para acolher estas crianças?

I.H. – Acho. Acho que esta escola tem boas condições. 

 

E a escola Secundária da Maia?

I.H.- A escola Secundária da Maia não tem tão boas como esta, mas também porque não tem alunos destes. É assim, quando os alunos surgem numa escola, estou a falar de deficiência mental, que é o que nos temos aqui neste momento, é preciso preparar as coisas e a partir do momento que se prepara há material e existe forma de trabalhar, mas na escola Secundária da Maia não existe isso. Tinha, sim, muito boas condições para alunos com deficiência visual. Tínhamos lá três aparelhos que eram fundamentais para os alunos. O myreader que era um aparelho que permitia a leitura ampliada, parece um portátil com uma televisão. Os alunos com baixa visão conseguiam ler. Eles conseguiam fazer os trabalhos assim. Outro aparelho era o Poet, que fazia a leitura de textos. Lia em voz alta o que se punha lá. Imaginem o scanner do computador, põem lá um texto e aquilo lê. Aquilo tem capacidade para decorar 500 mil páginas. Podia-se voltar a trás e ir para a frente as vezes que se quisesse, por numa pen e levar para o computador de casa. Havia outro aparelho que era o Zy-fuse, que fazia materiais em relevo. Nunca foi muito usado porque os alunos não queriam. Conseguiam ver o suficiente e não estavam para estar a apalpar os papéis, como eu costumo dizer, mas esses materiais existiam e eram muito importantes. Desde que eles começassem a trabalhar com eles, habituavam-se aquilo. Com força de vontade é possível fazer-se. Desde que as pessoas queiram.

 

Sente que estas crianças são vítimas de preconceitos pelos restantes alunos da escola?

I.H.- Os meninos são mauzinhos. As crianças naturalmente são mazinhas para as outras, mas habituam-se. Mazinhas no sentido de gostam de picar e de chatear. Gostam de pegar nas coisas que mais chateiam. Vocês sabem bem isso, também andaram na escola. Se um se lembra de implicar com outro por um motivo qualquer, os outros estão sempre a gozar e a meter-se com ele. Isto é normal. Eles não são mais vítimas que os outros. É preciso tratar as coisas com igualdade. Se nós valorizamos muito o “gozo” que eles fazem, estamos a criar uma deficiência na comunicação entre eles. Não noto que eles sejam mais marginalizados que outros. E mesmo nas turmas onde estão inseridos, normalmente, são aceites com muita boa vontade e ajudam-nos naquilo que é preciso. Agora quando é para chatear tanto chateiam um como chateiam outro. Tanto chateiam um aparentemente normal, se se lembram de dizer que ele tem os olhos verdes e ele não gosta, então os outros resolvem picá-lo e passam a vida a chateá-lo por causa disso, ou porque é gordo e um deficiente é a mesma coisa. São capazes de dizer que ele fala torto ou coisa do género, mas não noto nada de especial. Acho que tem um tratamento mais ou menos normal. Uma coisa engraçada é que eles são muito protectores. É uma descriminação também positiva. Quando alguém fora do grupo ataca esses meninos que fazem parte da turma, eles chateiam-se. Eles podem dizer mal, mas não querem que ninguém diga. É normal. É como quem tem irmãos. Nós podemos dizer mal deles, mas não gostamos que os outros digam.

 

Na hora do refeitório e do recreio eles convivem?

I.H. – Sim, sim. Na hora do recreio e do refeitório vão com os outros meninos para a cantina ou para o recreio. Claro que temos sempre a supervisão de um funcionário. E na cantina também, até porque muitos deles tem dificuldade em manusear os talhares e comer correctamente. Há sempre alguém a controlar isso, mas estão lá na cantina no meio dos outros, a fazer exactamente o mesmo.

 

Que actividades procura desenvolver com os seus alunos?

I.H. – Actividades académicas normais: português, matemática, ciências, tudo ligado às coisas básicas. Não pensem que é um grande currículo, não têm propriamente que saber os verbos. São as coisas mais básicas. Saber interpretar um sinal de trânsito, isto é importante para eles. Saber ir a uma farmácia, saber ir a um banco. Isto são as actividades académicas normais. O que é que eles fazem mais? Têm jardinagem. Têm um jardim com couves e outro com aromáticas, que eles que vão fazendo. Vão apanhando ervas, vão colocando coisas, fazendo as etiquetas. Tem trabalhos manuais, sempre no sentido que são coisas básicas. Também importa muito desenvolver a motricidade fina. Até os podem ver a bordar. Eles têm que saber movimentar as mãos. Têm música. Sempre que podemos pomo-los em actividades em que possam trabalhar de alguma forma. Têm actividades na cantina.

 

E actividades físicas?

I.H. – Sim, claro. Têm educação física e desenvolvimento motor. Passamos aqui umas horas com eles. Também têm aulas de informática e aulas normais, às vezes em pequenos grupos, porque é diferente do que estarem na turma, mas têm essas aulas todas. Expressão plástica, essas coisas todas.

   

 

 

 

Publicado por Grupo 3 às 13:35

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